Carreira, Planejamento

A busca do essencial

Uma crise se instalou no Brasil há vários meses. E esta crise, em particular, nos remete à busca de soluções para problemas que afetam o nosso consumo de uma forma ampla. Não é um setor específico, nem mesmo uma indústria em particular que está afetada pela crise, mas toda a economia brasileira. O maior exemplo disto é o índice de desemprego, que disparou para perto de 12% da população economicamente ativa em dezembro de 2016.

O que buscar nestas horas? Além do conforto emocional requerido para termos a energia e serenidade necessárias para superar este momento, precisamos identificar o que nos é essencial, separando aquilo que é supérfluo para outro momento.

Mas isto não é tão simples, principalmente quando consideramos o excesso de consumo a que estamos habituados, onde o padrão de vida muitas vezes é fruto do atendimento da expectativa do outro e não da compreensão dos nossos próprios valores.

Há mais de cinquenta anos o psicólogo e professor americano Abraham Maslow desenvolveu e publicou um estudo no qual defendeu que as necessidades básicas do ser humano seriam classificadas através de cinco níveis hierarquizados de satisfação, que devem ser percebidos, vividos e ultrapassados para satisfazer nossas expectativas de auto-realização.

Os níveis, do mais básico ao mais sofisticado, vão das necessidades fisiológicas (fome, sede, sono, sexo, excreção, abrigo), segurança (casa, emprego, seguro, remuneração), sociais (amor, afeto, pertencer a um grupo, poder interagir com os outros), autoestima (ser querido, ter confiança, ser reconhecido pelas nossas capacidades pessoais por nós mesmos e pelos outros) até a auto-realização (ser aquilo que podemos, ter autonomia, participar da tomada de decisões), sendo que este último considera a importância da coerência da nossa natureza com a realidade onde estamos inseridos, independentemente de nossa situação social, raça, idade, opção sexual ou crença.

Há muito que esta análise colabora para sustentar as campanhas de marketing no mundo todo, pois os estrategistas do consumo resolveram adaptar o resultado deste estudo alterando a avaliação de “necessidade” para “desejo”. Perceba, contudo, que necessidade e desejo são coisas bem distintas, às vezes opostas, até. Mas o marketing muitas vezes busca criar uma associação entre o consumo de algo a um nível alto da escala hierárquica de necessidades de Maslow, de forma que ter este ou aquele produto nos inclua num determinado grupo ou permita que os outros reconheçam a nossa capacidade pessoal e o nosso sucesso.

Até pouco tempo, usar uma sandália de borracha que não deforma, não solta as tiras e não tem cheiro era mais do que uma opção bem recebida pelas camadas mais simples da população. Era uma alternativa quase única frente às demais ofertas de mercado, muito mais caras. Hoje em dia, estas mesmas sandálias são vendidas nas melhores lojas do Brasil e do exterior a preços incompatíveis com o seu custo. Mudou o produto ou mudou a forma como classificamos este produto frente às nossas “necessidades”? Será que não saímos do uso de um produto classificável como “fisiológico” (afinal, andar descalço pode causar doenças) para algo mais “social”, que nos permite o reconhecimento num determinado grupo que pratica hábitos de consumo ditados pela moda do momento?

Pois bem, recomendo que procuremos avaliar nossas necessidades de consumo (ou mesmo nossos desejos) a partir da ótica de Maslow, buscando classificar a importância do produto que objetivamos na nossa escala de prioridades. Observemos a distinção entre necessidade e desejo e onde o nosso ato de consumo quer colocar o objeto que se pretende adquirir. Isto pode facilitar muito a descoberta daquilo que nos é essencial do que pode ser deixado para um momento no qual represente a celebração do resultado de uma vitória pessoal ou coletiva, também importante, mas nada prioritário.

Observe que a oportunidade de revisão de nossos valores é rara e o momento de crise às vezes nos conduz a esta reflexão por força das circunstâncias (desemprego, redução de renda, falta de clientes). Considere, portanto, este momento como uma grande chance para se reposicionar frente à vida, revendo seus valores, necessidades e desejos.

Até mesmo o emprego ou trabalho que buscamos ou o empreendimento que projetamos, atende às nossas necessidades?

Por estas e outras é que entendemos a razão dos chineses usarem o mesmo ideograma para representar “crise” e “oportunidade”.

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