Uma Vida que Funcione

Advice for the young at heart

Soon we will be older

When we gonna make it work?”

A música de 1989 do Tears for Fears para os “jovens de coração” lembra a todos que em breve seremos mais velhos e propõe uma questão àqueles que pretendem envelhecer. Até porque, a alternativa ao envelhecimento não é nada animadora. Mas, afinal, quando faremos a vida funcionar? E o que seria uma “vida que funciona”, como a aconselhada nos versos?

Uma possível resposta a essa questão pode estar da afirmação do psicanalista Contardo Calligaris, num trecho de uma palestra divulgada pela Revista Vida Simples em setembro de 2021, na qual o psicanalista, falecido em março do mesmo ano, declara que “o sentido da vida está na vida concreta, no que é vivido a cada dia”.

Viver a cada dia, contudo, não significa necessariamente viver ao sabor dos ventos, mas a partir da identificação de um norte que oriente o sujeito em seu cotidiano, permitindo que a vida ocorra no aqui e agora e conectada a uma perspectiva futura alinhada a objetivos definidos por desejos e necessidades. Em outras palavras, identificar “onde e como desejo chegar?” Buscar respostas a esta questão pode ser um caminho para estabelecer a jornada do envelhecimento de alguém, mesmo que a solução desse enigma seja algo complexo, imprevisível e sujeito a inúmeras transformações ao longo do caminho.

Neste sentido, pesquisar e estudar o processo de envelhecimento a partir da experiência daqueles que já viveram mais de 60 anos pode ajudar a significar as ações temporais e cotidianas das gerações mais novas, colaborando criticamente com o ato de envelhecer, permitindo que a chegada à senioridade não impacte a vida da pessoa de forma drástica e viabilizando algum conforto àqueles que se preparam para esse processo natural da vida, mesmo que sem garantias.

Entender como se sentem aqueles que já viveram boa parte da vida em relação ao que idealizaram, ou não, quando jovens, poderá ajudar a identificar aspectos que facilitem o processo de envelhecimento das gerações que ainda têm, supostamente, muito a viver.

A médica geriatra especializada em cuidados paliativos Ana Claudia Quintana Arantes, no livro “A morte é um dia que vale a pena viver” (2017) cita diversos relatos de pessoas que, ao chegarem ao final da jornada, percebem que deveriam ter “levado a vida” de outra forma. Como sensibilizar as pessoas mais jovens sobre esse fato muito antes dele ocorrer? Haveria aspectos de personalidade e capacidades cognitivas implicadas na forma de se escolher a forma de “levar a vida”?

Olhar para o futuro pode permitir que as escolhas possam ser realizadas a partir de perspectivas mais engajadas. A escolha do trabalho e da fonte de renda pode ser feita considerando-se aspectos além da garantia financeira. Essa escolha pode permitir autonomia e independência, seja nas fases da vida mais produtivas quanto no futuro, assim como pode estimular que a atividade humana seja uma forma de incluir-se no mundo em qualquer momento da vida. Olhar para a saúde, os relacionamentos e os estudos são outros aspectos que podem influenciar a manutenção do caminho do envelhecimento.

Além desses pontos, olhar criticamente para onde o mundo caminha é tão importante quanto garantir no trabalho escolhido uma fonte de prazer, status e experiência. Afinal, como será envelhecer numa sociedade onde a produção industrial e os serviços estão sendo transformados pela automação, pela robótica e pela inteligência artificial, onde o aumento da produção opera na mesma intensidade da redução do emprego para as pessoas em idade ativa, afetando a todos e em qualquer momento da vida?

Profissões tradicionais já sofrem mudanças estruturais e carreiras inimagináveis atualmente serão criadas, transformando a relação com o trabalho e com o futuro. Como lidar com todas estas transformações e estar preparado para a vida após os 60 anos?

Acresça-se a esses aspectos as políticas públicas, que deverão ser adaptadas para garantir programas de envelhecimento ativo, manutenção do mercado de trabalho, saúde assistida, estímulo da autonomia e renda mínima para a população, além de uma revisão no modelo de previdência pública, já incapaz de atender às necessidades de uma população que envelhece em maior quantidade e por mais tempo. Dados da PNAD (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios) Contínua, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), publicados em setembro de 2022, demonstram que a população brasileira está estimada em 212,7 milhões de pessoas (2021), sendo 14,7% (31,2 milhões) delas com 60 anos ou mais. De acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), esse número, no Brasil, será de 30% em 2050. Como será a velhice dessa população?

Os desafios são imensos, mas observamos pessoas que se prepararam para envelhecer enquanto outras não o fizeram. Estudar as características daqueles que se estruturaram financeira, comportamental e psicologicamente para essa fase da vida poderá ajudar na identificação de aspectos a serem trabalhados e estimulados junto às gerações mais novas.

Uma pesquisa interdisciplinar relacionada ao processo de envelhecer e a elaboração de material de pesquisa consistentes podem gerar recursos que provoquem nas pessoas uma reflexão que as auxilie no estabelecimento de estratégias pessoais associadas à saúde, carreira, relacionamentos, qualidade de vida, finanças ou lazer, assim como no suporte às políticas públicas relacionadas ao envelhecimento.

Questões precisam ser respondidas, tais como:

  • Como os idosos de hoje lidaram com o planejamento de suas vidas e se prepararam para o envelhecimento? Onde acertaram? E onde não?
  • Quais as características de personalidade e habilidades cognitivas daqueles que se prepararam para a vida após os 60 anos?
  • Como as tendências e mudanças tecnológicas impactam o envelhecimento?
  • O que os idosos recomendariam a si próprios caso pudessem enviar uma mensagem aos jovens que foram aos 25 anos?
  • Como idosos de países com IDH (índice de Desenvolvimento Humano) acima de 0,900 se preparam? (o Brasil ocupa a 87a posição no ranking entre 191 países, com o índice de 0,754);
  • Há diferenças nas políticas públicas de welfare state e conscientização sobre o envelhecimento nos países com IDH no topo da tabela?
  • Quais elementos precisarão estar no radar das pessoas durante o processos de envelhecer?

Espera-se que aqueles que queiram planejar de alguma forma seu futuro, apesar de toda a incerteza relacionada a esses planos, que atribuam ao presente uma ação consciente que lhes permita renunciar a alguns prazeres imediatos, mesmo que com algum custo, de forma a garantir um futuro em melhores condições.

Daniel Kahneman, psicólogo e professor universitário israelense radicado nos Estados Unidos, um dos fundadores da “economia comportamental” e o primeiro não-economista a receber o Nobel de Economia, em 2002, defende, no que chamou de “Teoria da Perspectiva”, que as pessoas são guiadas pelo “impacto emocional imediato de ganhos e perdas, não por perspectivas de longo prazo de riqueza e utilidade global”. No livro “Rápido e devagar: duas formas de pensar” (2011), Kahneman define como as pessoas decidem entre alternativas contrárias. Ele e o também psicólogo Amos Tversky desenvolveram uma análise, baseada na psicologia cognitiva, sobre como indivíduos escolhem entre alternativas que envolvem, direta ou indiretamente, probabilidades de resultados incertos.

Aplicando esta teoria à questão do envelhecimento, pode-se avaliar por qual razão seria importante para alguém reservar parte de seus ganhos no presente para ter uma vida mais tranquila no futuro, o conceito da previdência. Entenda-se por ganhos, neste caso, quaisquer aspectos relacionados a uma melhor condição de envelhecer. Seja na saúde, com a prática de exercícios físicos, check-ups periódicos e alimentação balanceada, na carreira, com o interesse pelo estudo continuado e adequação de habilidades que permitam a manutenção da empregabilidade e nas finanças, com o planejamento financeiro através de mecanismos de controle de gastos e manutenção de renda futura.

Uma vez que não há garantias de que viveremos o tempo que estimamos ou gostaríamos, por qual razão deixar de ter um prazer imediato em benefício de algum potencial conforto futuro? Não há resposta objetiva e segura a esta pergunta no presente, mas pesquisar qual a satisfação dos idosos hoje sobre terem escolhido, ou não, esse caminho, poderá iluminar as razões pelas quais jovens e pessoas de meia-idade possam desenvolver formas de pensar e planejar suas carreiras, finanças e saúde. A questão aqui é saber quem quer correr esse risco? Lembrando sempre que riscos são ameaças, mas também oportunidades.

A ditadura do algoritmo

Aftersix(ty) na mídia – Artigo publicado na Folha de S.Paulo em 21 de agosto de 2021

Link: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2021/08/a-ditadura-do-algoritmo.shtml

Nunca o termo ‘escravo do sistema’ fez tanto sentido

Recentemente, durante uma reunião com o time de marketing digital que assessora minha empresa, ouvi a expressão “o algoritmo não ficou feliz com esse post”. Por ser jurássico na área de tecnologia, tendo iniciado há quase 40 anos como programador e concluído a carreira executiva como CIO (diretor de tecnologia da informação), sei muito bem o que é um algoritmo. Desenvolvi vários, mas, até hoje, nunca esperei que algum deles ficasse feliz ou triste com algo que eu declarasse, publicasse ou apresentasse.

Provoquei, perguntando como deixar o sensível algoritmo “feliz”. Ouvi uma sequência de ações para que qualquer informação das redes sociais —veículos essenciais para a divulgação de qualquer trabalho neste mundo contemporâneo— seja publicada para um número significativo de pessoas. Em outras palavras, é necessária uma série de ações para que o algoritmo fique “feliz” e lhe conceda, magnanimamente, um espaço no ambiente no qual é soberano. Melhor ainda se for um vídeo, pois, como vaticinou alguém da equipe, hoje “ninguém lê texto longo”.

Considerando-se que, na política, uma ditadura caracteriza-se por um governo autoritário ou totalitário exercido por uma pessoa ou por um grupo de pessoas que restringem os direitos individuais, não vejo diferença entre a ditadura política e viver num mundo aonde um robô ou uma inteligência artificial interpreta, aprende e provoca contínua e quase naturalmente emoções humanas a partir de um volume monstruoso de informações publicadas a cada segundo. Tudo para gerar um viés cognitivo que influencia aqueles que estão sendo bombardeados pelas informações escolhidas pelo programinha quando se sente feliz. É a ditadura do algoritmo. Por sinal, nunca o termo “escravo do sistema” fez tanto sentido.

No caso das redes sociais, o objetivo do “ditador algoritmo” é apresentar a melhor experiência possível a quem estiver navegando, disponibilizando algum conteúdo que seja agradável à pessoa e bloqueando o que não a agrade, garantindo fidelidade ao aplicativo e a todas as suas variantes. Mas isso vai além de proporcionar uma boa experiência, pois o perfil de consumo também é mapeado, facilitando a oferta de produtos e serviços aderentes aos anseios da pessoa. Enfim, num mundo capitalista, tudo acaba levando o sujeito a querer comprar alguma coisa, preferencialmente de forma impensada e impulsiva. O pior é que isso ocorre tanto para produtos quanto para candidatos em campanhas políticas. O princípio é o mesmo.

Essa ditadura do “soberano algoritmo” chega a ser até mais cruel que a ditadura política, pois é camuflada por imagens agradáveis, frases de incentivo e áudios que tornam o pensamento dos que consomem tudo isso alinhados aos anseios daqueles que criam armadilhas que levam a uma interpretação equivocada do mundo, conduzindo a decisões irracionais que atendam às expectativas do “algoz algoritmo”.

Que triste estar num mundo em que tudo é feito para que se leia, ouça ou veja somente aquilo que queremos ler, ouvir e ver. A ausência do contraditório, da discrepância e do discordante infantiliza qualquer relação e impede que se mantenha a visão sobre o mundo e sobre a vida em evolução contínua. Caso vivesse hoje e estivesse pendurado numa rede social, Raul Seixas não conseguiria ser uma metamorfose ambulante. O algoritmo não permitiria.

Coaching: criminalização ou conscientização?

AfterSix na mídia – Artigo publicado na Folha de S.Paulo em 26 de agosto de 2019.

Link: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2019/08/coaching-criminalizacao-ou-regulamentacao.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwa

Recentes discussões sobre a prática de coaching no Brasil trouxeram à tona diversas opiniões sobre uma atividade que cresce a cada ano e que é reconhecida pelas empresas como uma importante ferramenta para o planejamento de carreira.

Nos Estados Unidos e na Europa, esse recurso de gestão é muito utilizado no desenvolvimento de lideranças e incentivado corporativamente como parte do processo de definição de objetivos e mapeamento de competências de seus funcionários. Por ser uma prática consolidada, exige-se adequada certificação dos coaches por meio de instituições reconhecidas pelo mercado. Por aqui, estuda-se a sua legalidade.

A prática de coaching não se resolve com a criminalização. Ela pode até passar por um processo de regulamentação, mas requer um processo de conscientização tanto daqueles que desejam buscar algum apoio para seu desenvolvimento pessoal ou profissional quanto dos que pretendem oferecer tal serviço.

Afinal, coaching é um recurso de liderança que, quando bem realizado, muda a perspectiva da pessoa e transforma o clima de uma empresa. Requer determinação de quem busca alcançar seus objetivos e adequada formação do profissional que conduz o processo. Cursos que duram poucos dias, baseados em dicas de técnicas e ferramentas, não habilitam alguém a estimular reflexões em clientes que resultem em planos de ação que produzam mudanças.

O crescimento no interesse e na oferta dos serviços favorece a confusão sobre a aplicabilidade do coaching. Com o desemprego em alta, não faltam “coaches de minuto” no mercado. Percebe-se a explosão de pessoas oferecendo soluções que vão de “coaching de relacionamento” a “coaching psicofísico quântico nanomolecular”, seja lá o que isso for. Escolas e institutos aproveitam-se dessa demanda e oferecem cursos de qualidade questionável em finais de semana, para centenas de pessoas, certificando-as numa prática que a maioria desconhece.

O caminho passa pela ética de quem oferece cursos ou serviços e pelo esclarecimento de quem os compra. Programas de conscientização sobre o que é o coaching e como avaliar escolas e profissionais que prestam esses serviços serviriam como um importante instrumento àqueles que procuram desenvolver-se pessoal ou profissionalmente.

Certificar-se de que o coach tenha sido devidamente capacitado e certificado por uma escola vinculada a algum órgão internacional e que reconheça as diretrizes éticas e as normas profissionais para a condução da atividade, invista em sua formação continuada e passe por processos de supervisão junto a outros profissionais da área são requisitos mínimos para a escolha de um coach.

Seguindo essa linha de raciocínio, criminalizar a profissão poderá aguçar a capacidade do jeitinho brasileiro. Aquele que hoje se denomina coach passará a se intitular mentor, consultor ou qualquer outro título.

Por outro lado, regulamentar não necessariamente resolverá o problema, pois a medicina é muito bem regulamentada e há quem procure terapeutas holísticos, curandeiros, amigos palpiteiros ou balconistas de farmácia para resolver seus males.

A meu ver, a solução está em conscientizar a população por meio de campanhas educativas para esclarecer o que é coaching. Assim, as pessoas teriam condições de identificar o profissional adequado para confiar seu desenvolvimento.

 

Planeje seus objetivos a partir de seu propósito

Num mundo onde as mudanças são muito rápidas e tudo é incerto, a forma como planejávamos nossas vidas ou carreiras até alguns anos atrás fica cada vez mais distante. Cabe-nos muita agilidade na resposta às demandas imediatas e foco nas ações de mais longo prazo, exigindo que conheçamos nosso propósito de vida, as competências com que lidamos naturalmente e aquelas que precisam ser desenvolvidas.

Quando for planejar objetivos e metas profissionais, seja para si ou sua empresa, parta de seu propósito, algo individual, personalizado, único, exclusivo e que defina a sua visão sobre o futuro. Observe tendências, pesquise modelos que estejam sendo desenvolvidos no mundo e planeje com base naquilo que se apresenta como possibilidade concreta de realização e que se vincule aos seus sonhos. Muitas vezes, planejamos com base na nossa própria experiência de sucesso, mas, atualmente, o que o trouxe até aqui não necessariamente servirá para levá-lo adiante. Desafie-se continuamente e permita que todos de sua equipe descubram seus propósitos e que os alinhem com o de seu negócio. Ao facilitar essa conexão, você se tornará um líder melhor e coordenará uma equipe mais produtiva. Compreenda a importância da felicidade no trabalho como uma efetiva ferramenta de aumento de desempenho.

Caso precise desenvolver alguma competência requerida para realizar seus planos, saiba que há profissionais que buscam estimular o seu desenvolvimento e que o apoiarão durante a elaboração de estratégias e planos de ações. São os coaches, que conduzem processos de autoconhecimento e planejamento estratégico pessoal, denominados coaching.

O processo de coaching é sempre desafiador para quem o realiza, pois o coach irá questionar o cliente sobre inúmeros temas. Questões como “o que você quer para a sua vida?”, “o que você sempre sonhou em fazer e ainda não fez?”, “o que será necessário para atingir seus objetivos?” fazem parte do processo, que buscará desenvolver no cliente os recursos internos requeridos para o sucesso de seus planos.

Isso faz com que o processo de coaching seja para poucos. Somente quem deseja, efetivamente, transformar a forma de se relacionar com desafios, necessidades e desejos saberá valorizar e usufruir dos insights percebidos ao longo do processo e que, certamente, transformarão sua vida e seu caminho.

E você, sente-se em condições de desenvolver seu propósito, planejar seu futuro profissional e realizar seus objetivos?

Você está preparado para viver em um mundo VUCA?

Vivemos um tempo de desafios extremos, tanto para profissionais liberais quanto para pequenas e médias empresas e corporações. Segundo especialistas em gestão, vivemos num “mundo VUCA”, uma expressão que nasceu durante a guerra fria, mas que está cada vez mais presente no vocabulário dos profissionais e dos empreendedores da nova economia.

VUCA é um acrônimo do inglês Volatile, Uncertain, Complex e Ambiguous e serve para descrever quatro características que estão presentes atualmente na vida de todos: Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade.

O principal impacto destas caraterísticas pode ser percebido na dificuldade de realizar qualquer planejamento de longo prazo. Entende-se que no mundo VUCA seja mais prudente ter agilidade na resposta às demandas imediatas do ambiente e nas ações de curto prazo do que projetar cenários longos e complexos.

Tal situação, contudo, afeta diretamente a nossa relação com as necessidades básicas dos seres humanos, como reconhecimento, segurança ou estabilidade. Por esta razão, é cada vez mais importante termos clareza do nosso propósito, da missão de nosso negócio e da identificação dos resultados buscados, mitigando o impacto da volatilidade que está ao nosso redor.

O mesmo vale para a incerteza, pois a forma de resolver os problemas de hoje talvez não sirva para compreender e resolver os problemas em um futuro próximo.

Perceber a interdependência das coisas e considerar a complexidade das variáveis presentes na tomada de decisão fogem dos modelos de gestão de riscos tradicionalmente utilizados em processos corporativos e atitudes individuais. Como consequência, é improvável que ações isoladas tenham algum efeito em um sistema interconectado.

A ambiguidade está presente na ausência de clareza ao se analisar contextos complexos. Experiências anteriores não garantem que a solução para um problema sirva em um novo cenário, uma vez que este pode propiciar diversas interpretações cabíveis.

Desenvolver habilidades específicas será um caminho de empoderamento que viabilizará melhores ações de contorno no mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo.

Uma vez que as mudanças são inevitáveis, a inteligência emocional, a autoestima e a resiliência são essenciais para lidar com a volatilidade e com as adaptações requeridas na transformação do cenário.

Para lidar com as incertezas, a flexibilidade é o caminho para a adaptação constante à realidade que se transforma. A impossibilidade de certezas sobre qual caminho seguir sugere que tenhamos a mente aberta para o desenvolvimento da criatividade e da capacidade de resolução de problemas complexos.

No caso da complexidade do mundo, competências como teamworking, pensamento crítico e flexibilidade cognitiva são as ferramentas que permitirão ampliar a visão sobre o contexto, permitindo a elaboração de soluções mais aderentes às necessidades.

A ambiguidade requer que tenhamos uma grande habilidade de negociação, tanto interiormente quanto com os participantes da situação, pois o caminho a seguir não será necessariamente similar às decisões sustentadas no passado. Aprender com os erros e analisar a situação por outra perspectiva requer uma postura firme e disposta a assumir novos riscos.

Enfim, no mundo VUCA, é fundamental que se tenha ousadia. Pois é sendo ousado que poderemos analisar os problemas em potencial e suas variáveis, entenderemos as consequências de cada problema e as possíveis ações requeridas, avaliaremos a interdependência das variáveis identificadas e nos prepararemos para as alternativas e seus desafios.

 

Entrevista de emprego: como sair de situações complicadas com elegância

É muito comum ouvirmos especialistas indicando como um candidato deve se comportar na hora de uma entrevista de emprego. Geralmente são as mesmas recomendações: ir vestido de forma adequada à vaga pleiteada, ser educado, risonho, simpático. Para as mulheres, sempre falam para não exagerar na maquiagem e não extrapolar no uso do perfume, o que vale também para os homens.

Mas e como sair daquelas perguntas muito comuns sem cair no clichê ou obviedade? Exemplo? A clássica: qual seu ponto fraco? A maioria das pessoas costuma falar que é ser perfeccionista.

Então, como responder sem queimar a largada, sem cair no óbvio e sem parecer que está provocando o entrevistador? “Poderia falar, de forma elegante, que seria melhor perguntar aos seus amigos, que o conhecem melhor. Outra possibilidade é falar, por exemplo: pontualidade. Inverter os papeis e perguntar: ‘para o posto que vou ocupar, não ser pontual é algo grave?’”, aconselha o executive coach Edson de Moraes, formado pelo Instituto EcoSocial e certificado pelo ICF – International Coach Federation e sócio do Espaço Meio.

Porém, é só entrarmos em grupos de profissionais no Facebook para nos depararmos com desabafos de pessoas que passaram por situações constrangedoras. Um exemplo: uma moça que tem a certeza de que não foi contratada por ter dito que tem uma doença psiquiátrica. Nesses casos, vale a pena se abrir?

Moraes aconselha a ser sincero, mas a responder o que for questionado e a não falar voluntariamente. “O que interessa a essa pessoa perguntar sobre isso, se você estiver se medicando, se tratando? Porém, se perguntarem, responda a verdade. Exemplos: ‘Sim, tenho uma doença psiquiátrica, mas eu tomo remédio, faço terapia e estou bem’; ‘Fui contaminado pelo vírus HIV, faço tratamento e isso não me impede de ter uma vida normal’.

O especialista aconselha a não levantar bandeira sobre o problema, mas não omitir. Ou seja, de novo, responda o que for questionado. Porém, ele lança uma questão: “Se fizerem esse tipo de pergunta, sobre saúde, gênero, política, situação financeira e temas afins, acredito que valha a pena você também se questionar se gostaria de trabalhar em uma empresa assim”.

Dizer não

Outra situação: uma pessoa se candidata a uma vaga, mas o contratante fica sob sigilo. Só na última fase do processo de seleção, após testes e entrevistas, fica sabendo que se trata de uma empresa de tabaco, da indústria bélica, ou é um frigorífico ou confecção que utiliza pele animal. E pelas suas crenças e valores, após a descoberta, precisa dizer que não tem interesse na vaga. Como sair bem dessa situação?

Moraes diz que na cultura ocidental as pessoas vão ao processo de seleção e veem o entrevistador como alguém que está lhe fazendo um favor, não como se essa relação fosse uma troca. No caso acima, é cabível comentar com o recrutador que você não foi informado sobre o ramo de atuação do contratante. O que também pode ser feito é você se adiantar quando o nome da empresa não for dito. Comente as suas restrições. Assim, nenhum dos lados perderá tempo.

“As pessoas não têm coragem de falar não, pois se sentem rejeitadas. Elas sempre esperam por alguma recompensa. Outros pensam que falar não é uma barreira que fechará portas. Porém, é preciso lembrar que se trata de um contrato de trabalho e que ele não será eterno. Assim, voltamos ao que é realmente  importante, seus valores e crenças, isso vai determinar tudo”, finaliza Moraes.

 

Meditação não dá trabalho

Muitos procuram no coaching uma forma de reorganização interna para atingir algum objetivo, seja pessoal, profissional, financeiro ou tudo isto junto! Procuro explicar que o papel do coach é ajudar o cliente a montar uma estratégia para organizar os planos, identificar as competências necessárias para o sucesso no atingimento de objetivos e acompanhar a execução das atividades identificadas no plano. Mas o que vale mesmo é a pessoa executar essa estratégia com diligência e foco, seguindo, no presente, os passos necessários para atingir os objetivos desejados para o futuro.

Para que tais ações sejam realizadas, é fundamental que a pessoa esteja atenta a si própria, percebendo quais desejos e necessidades devem ser atendidos e validando se suas ações estão coerentes com aquilo que se quer atingir.

Muitas vezes, ao discutir tais aspectos de seu programa de coaching, as pessoas perguntam como manter o foco, uma vez que a vida requer múltiplas ações realizadas quase que simultâneas.

A alternativa prática que recomendo para colaborar com a execução de seus planos é a meditação. Apesar de budista, não recomendo nada metafísico ou associado a uma religião. Como descrito por Facundo Guerra, que se define como “um agnóstico do tipo arrogante” no livro “Empreendedorismo Para Subversivos”, “simplesmente baixe um aplicativo de meditação no seu celular, use um de seus tutoriais e pare por dez, quinze minutos por dia para entrar verdadeiramente dentro de si.” Se até um cético assumido recomenda esta prática, vejo que o caminho pode ser percorrido com tranquilidade por qualquer pessoa, independentemente de sua crença. Basta identificar o método mais adequado ao estilo da pessoa.

Deve-se tratar a prática da meditação como uma ferramenta poderosa para se compreender melhor, amenizar a ansiedade de quem está procurando emprego ou dar forças a quem está trabalhando, mas sobrecarregado e infeliz com sua atividade.

A meditação permite viver um estado de consciência sobre si como nenhuma outra técnica ou tratamento permitirá. Pode parecer estranho no início, mas a persistência na prática diminui a ansiedade, melhora a depressão e o sono, controla a pressão arterial e diminui os batimentos cardíacos. Tudo isto cientificamente provado por diversas pesquisas, trabalhos acadêmicos e relatos de meditadores frequentes.

O equilíbrio percebido por meio da prática favorecerá a compreensão sobre como agimos, reagimos e enfrentamos as questões que nos trazem satisfação ou sofrimento, viabilizando a estruturação de mudanças internas, as quais nos levarão a buscar transformações no nosso ambiente externo, além de permitir que nos centremos nas atividades cotidianas e na execução de nossos projetos. O resultado é mais foco e alta performance na realização das tarefas e atividades requeridas para execução de planos.

Antes que alguém fale que não consegue “esvaziar a mente”, devo dizer que isto é uma bobagem. Não há como esvaziar a mente, a não ser que a pessoa esteja em morte cerebral. Aí o caso já é outro. Meditar é observar os pensamentos, sem julgamento ou seleção (isto quero, aquilo não quero). Como entre um pensamento e outro há um intervalo, ao perceber em atenção plena o que pensamos, também notamos que entre um pensamento e outro não há nada. A observação constante amplia este intervalo, fazendo com que surja, naturalmente o chamado vazio da mente, que dura até o próximo pensamento. Neste processo, a mente observa a mente. E isto nos faz conhecer alguém novo: nós mesmos.

Meditar não faz com que um chefe ou um cliente chato se torne uma boa pessoa, tampouco garante emprego nem substitui um bom curriculum ou amplia seu networking, mas ajuda imensamente a manter a percepção sobre si e seu foco. E, assim, com a ansiedade administrada, tanto a manutenção do emprego quanto a busca por um novo trabalho ficam facilitados. Com os pés no chão e um estado de consciência ampliado, a vida fica mais simples e mais objetiva. Com foco! Afinal, as coisas são como elas realmente são.

Experimente. Meditar não dá trabalho. Nem emprego. Mas ajuda a viver melhor.

Você fez o que planejou em 2017?

Em geral os artigos nesta época de dezembro questionam e incentivam as pessoas a se prepararem para o novo ano. Sonhos, desejos, objetivos, planos e metas são traçados e mentalizados na virada do ano, junto das uvas com champanhe, romã, lentilha e as ondas que devem ser puladas nas primeiras horas de janeiro.

Proponho algo diferente para este momento. Que tal pegar aquela lista amassada na terceira gaveta da mesa, a planilha que foi arquivada pela última vez em 2 de janeiro de 2017 ou mesmo a listinha de desejos que está no seu arquivo de notas do celular? Vamos ver o que foi efetivamente realizado no ano que se conclui?

Caso tenha encontrado o registro de atividades, o que já é uma vitória, observe item a item e responda a si mesmo o quanto conseguiu cumprir. Mesmo que não a tenha encontrado, tente se lembrar das famosas promessas de ano novo. Quanto foi realizado? 10%, 40% ou 70%? A meta de eliminar cinco quilos aconteceu? O desejo de investir para aquela viagem chegou a bom termo? Começou aquele curso? Enfim, observe tudo que ocorreu no ano. Sem dúvida, há inúmeras coisas que você alcançou, mesmo que não estivessem em sua lista de resoluções para o ano novo que se iniciou há doze meses. Seguir adiante é parte da vida e seguramente há inúmeras conquistas a se registrar. Algumas aparentemente pequenas, mas que trouxeram muito prazer. Outras maiores, mas sem sentido neste momento.

Agora, se seus objetivos continuaram pendentes e serão encaminhados para planilha de objetivos de 2018, há algo a refletir. Procrastinar os sonhos pode ser um sinal de que há algum sabotador no seu caminho. E mais perto do que se possa imaginar. Afinal, na maioria das vezes, nós mesmo somos nossos sabotadores. Sabe aquela história de “não nasci com esse dom”, “nunca consigo finalizar nada”, “acho que me falta sorte”, “não sou a pessoa certa para planejar os objetivos”? Enfim, na maioria das vezes, somos os responsáveis pelos desejos que não se realizam. Claro que ninguém começa o dia desejando deixar os objetivos de lado, desperdiçando energia e desdenhando alguma motivação para realizar seus planos. Mas, infelizmente, a nossa mente nem sempre segue o que gostaríamos de realizar. Mesmo sabendo que é difícil mudar hábitos, pesquise como muda-los.

Charles Duhigg, autor do livro “O Poder do Hábito”, diz que a mudança de um simples hábito pode impactar várias áreas da sua vida. Para o autor, os hábitos se estabelecem porque o cérebro está continuamente procurando maneiras de poupar esforço. Um hábito é uma escolha que fizemos deliberadamente em algum momento e depois paramos de pensar a respeito, porém continuamos repetindo-a, às vezes diariamente. Basicamente, o hábito funciona de forma automática, como se fosse um moto-contínuo em busca de uma recompensa.

A rotina faz com que um hábito se estabeleça e será através dela que outro hábito poderá ser colocado no lugar. Sim, isto é possível. Basta conversar com algum adicto que venceu o vício através da mudança de hábito. Quem largou o cigarro após fumar por muitos anos sabe o quanto o hábito dificulta o processo, tanto quanto a dependência química. Aliás, é justamente mudando o hábito que começamos a abandonar o vício.

Para se ver livre de um hábito, é fundamental querer mudá-lo. Deve-se identificar quais recompensas buscamos com o hábito estabelecido e identificar alternativas viáveis para tais recompensas. E estabelecer novos hábitos com novas recompensas, mais conscientes e relacionadas com os nossos objetivos.

Muitas mudanças levam tempo e, às vezes, exigem tentativas e fracassos. Mas, uma vez que se compreende como um hábito funciona, ganha-se poder sobre ele.

Voltando aos objetivos para 2018, recente pesquisa do Datafolha demonstra que o brasileiro é imediatista e possui baixíssima tendência às ações sobre seu futuro. Apesar da pesquisa estar relacionada à capacidade de poupança, indicando uma resistência das pessoas a abrir mão de consumo no presente em troca de poupar e elevar recursos no futuro, o estudo revela que a paciência do brasileiro é baixíssima e que há um imediatismo exacerbado presente na nossa cultura.

Fica a questão: – vale a pena fazer planos, se somos imediatistas e nos rendemos a hábitos arraigados? Pense nisto antes de fazer a próxima lista de desejos. Mas, caso a faça, busque ajuda caso sinta que estes aspectos impactam sua capacidade de execução. Como diz Fernando Pessoa, “há só um caminho para a vida, que é a vida”. Então escolha como quer viver…

 

Saiba ler o futuro que alguns estão escrevendo agora

As principais consultorias globais do mercado produzem, periodicamente, relatórios nos quais profetizam o futuro. São técnicos, analistas, acadêmicos e futuristas que se debruçam sobre os principais assuntos em discussão no mundo, as pesquisas em curso nas universidades e as necessidades da sociedade e, a partir dessas discussões, mapeiam as grandes tendências globais em diversos mercados e segmentos, arriscando seus palpites sobre o futuro no médio prazo. Dez anos, em média.

Em geral, esses relatórios acertam os seus prognósticos, reforçando o “dilema de Tostines”, no qual “Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais”?

No caso das previsões das consultorias, a correlação existente entre causa e efeito é muito forte, uma vez que é difícil saber ao certo o que é fato gerador e o que é consequência. Afinal, o futuro se concretiza porque houve uma previsão acertada realizada por visionários ou ele ocorreu por conta dos trabalhos de consultoria que recomendaram que se seguisse aquilo que havia sido previsto e estava descrito nos trabalhos? Nunca saberemos e pouco importa saber, mas é certo que escrever o futuro é sempre mais interessante do que ficar à mercê dos acontecimentos.

Para os próximos anos, as principais consultorias do mercado preveem, dentre diversas outras apostas, que:

  • A automação, a robótica e a inteligência artificial serão intensificadas, permitindo interações simples e inteligentes, resultando em valor em cada conexão executada e facilitando a interação de clientes com marcas na mesma velocidade em que diminuirão a capacidade de empregabilidade das pessoas. Prepare-se para trabalhar ao lado de sistemas, robôs, chatbots e outros equipamentos mimetizados;
  • Novos padrões e regras serão desenhados para funcionar em indústrias transformadas de acordo com as demandas da economia digital. O que isso significará, não se sabe. As regras ainda serão escritas;
  • As plataformas operacionais das empresas deverão ser substituídas por ecossistemas robustos baseados em trabalho de equipes muitas vezes contratadas e organizadas de acordo com as demandas. Será uma grande transformação no emprego, pois o vínculo de trabalho temporário e por competências se intensificará. Em outras palavras, prepare-se para trabalhar a partir de projetos de curta duração;
  • As pessoas deverão ser capacitadas para lidar com os ecossistemas na forma de parcerias. Não fará sentido a visão de cliente e fornecedor. As transformações nas relações internas deverão ser estendidas aos demais participantes externos. Ao ajudar as pessoas a alcançar seus objetivos, todos se ajudarão, mutuamente, a definir um lugar mais nobre na evolução da sociedade. A relação entre pessoas e os resultados, sejam financeiros ou sociais, serão mais expressivos. Portanto, amplie sua conexão com o mundo (literalmente), desenvolva um método de estudo continuado e prepare-se para, mesmo sendo um técnico, conectar-se a pessoas e seus ecossistemas;

Este panorama permite observar que tanto os profissionais de hoje quanto as gerações que se formarão nos próximos anos e que buscam empreender ou trabalhar no terceiro setor, no governo ou nas corporações, deverão se preparar para desenvolver habilidades de adaptação e aprendizado contínuos, inclusive a capacidade de pensar diferente. Os mais vividos se lembrarão do profeta Raul Seixas, em Metamorfose Ambulante: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante / Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Pois assim será o futuro, um lugar onde a mediocridade significará fazer o básico, pensar o mínimo e estar fora do mercado, qualquer que ele seja. Seja flexível e muito bom naquilo que se propuser a fazer.

Outro aspecto muito delicado será o crescimento da população nas grandes cidades, fato que deverá aumentar a concorrência por trabalho, ampliar o consumo de energia e água, complicar muito a mobilidade, aumentar a falta de segurança e gerar mais crises sociais, principalmente pela redução da classe média, afetada pela escalada da automação e pelo desemprego. O trabalho estará em qualquer lugar do mundo. Prepare-se para trabalhar anywhere e para concorrer com pessoas e máquinas de todas as partes do globo.

Estabelecer propósitos, desenvolver valores, manter-se atualizado, preparar-se para novas formas de pensar e abrir-se para maneiras não convencionais e flexíveis de desenvolvimento profissional serão o caminho para a inclusão e a manutenção da capacidade de trabalho em um futuro (muito) próximo. Trabalhar em algo que faça a diferença talvez faça mais sentido que desenvolver uma carreira.

Espero que este panorama não seja tão complicado como aparenta e que eu possa, no futuro, cantar: “Eu vou desdizer aquilo tudo que eu lhe disse antes / Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante”.

 

Empreender: uma saída para o desemprego?

Diversas pessoas procuram no coaching uma forma de se organizar, externa e internamente, para encararem o processo de desenvolvimento de um negócio. Empreender é o desejo de uma considerável porção de profissionais que trabalha empregada em empresas. Com o índice de desemprego nas alturas e uma leva de pessoas disponíveis em um mercado com oportunidades reduzidas, muitos aproveitam a contingência, traduzida como oportunidade, para abrir um negócio próprio, seja individualmente ou com alguns sócios, muitas vezes familiares ou amigos que deixaram a mesma empresa e que sentem a mesma dificuldade no processo de recolocação.

Pesquisa realizada pelo Sebrae no final de 2016 e respondida por mais de 6.600 empreendedores, a partir da pergunta “Na sua opinião, atualmente, qual o principal ‘benefício’ para se tornar empresário(a)?”, apurou que os dois principais benefícios citados pelos entrevistados estão associados ao lado financeiro, sendo “manter a renda” (31%) e “ter independência financeira” (26%) as principais respostas escolhidas. Outras opções, como “conciliar trabalho e família” (22%) e “se realizar como empreendedor” (15%) aparecem com menor relevância.

Números como os apresentados acima demonstram que muitas pessoas anteriormente empregadas não empreendem por perceberem alguma demanda do mercado ou por imaginarem ter uma proposta de valor associada a um produto ou serviço, quesitos necessários para se abrir um negócio, mas buscam “comprar seu salário”, principalmente em um momento no qual o emprego está diminuto.

O Sebrae apura que o número de empreendimentos aumenta em momentos de retração da economia, o que evita uma maior estagnação do país. Sem empreendedores de pequeno porte, o número de desocupados seria ainda maior. Mas esquecem de avaliar que esse aumento nem sempre acontece por desejo de empreender, mas pela falta de opções.

Abrir uma empresa, seja em qualquer setor, requer um plano de negócios detalhado, fruto de muita pesquisa, análise e planejamento, buscando oferecer algo de valor ou atender a uma necessidade percebida do mercado. A jornalista Claudia Giudice, no livro “A Vida Sem Crachá”, aponta como lição aprendida a disposição para trabalhar. Ela diz que “o negócio próprio, pequeno ou grande, prospera quando o seu criador está por perto, investindo seu dinheiro e energia. Foi assim com Steve Jobs, Bill Gates e segue sendo com Mark Zuckerberg, que até hoje pega no pesado, trabalhando para melhorar as funcionalidades do Facebook. Esse é o caminho”. Simples assim.

Um plano de negócios deve contemplar a descrição da oferta dos produtos e serviços, o diferencial estratégico, a análise de mercado e da concorrência, a avaliação da capacidade de delivery, a estratégia de marketing, a avaliação de investimentos e as projeções financeiras. Apesar de Claudia Giudice declarar em seu livro que não elaborou um plano de negócios para os planos que se seguiram à perda do emprego, ela afirma que posteriormente compreendeu que correu muito perigo por não ter se planejado adequadamente. Hoje ela publica um blog e administra uma pousada na Bahia.

Um empreendedor deve possuir características e competências específicas, como atitude positiva, resiliência, habilidades de comunicação, conhecimento do negócio, capacidade de observação do mercado, de seus concorrentes e das necessidades de seus clientes e uma disposição para planejar o futuro de seu negócio, cuidando da avaliação contínua do contexto onde a oferta está inserida, pois a estagnação comprometerá a continuidade do empreendimento.

Como nem todos possuem todas as competências, desenvolvê-las ou delegá-las é parte da maturidade requerida para o desenvolvimento do negócio. Competências não desenvolvidas podem ser trabalhadas no coaching, mas a delegação requer assertividade na escolha de funcionários ou sócios.

Caso haja o desejo de empreender em você, faça contas. Busque investidores e reserve parte de seu capital para a gestão financeira da família, permitindo foco no negócio e não nas contas domésticas a pagar no mês seguinte. Comprometer suas reservas, incluindo o pacote de rescisão e o FGTS, somente aumentará a ansiedade pelo resultado do negócio, algo que pode demorar a acontecer. Como muitos relevam a importância do planejamento, o andamento da empresa corre sérios riscos. E a poupança da família toda investida no negócio vai embora junto com as chances de algum resultado.

Desde o início de julho, microempreendedores individuais podem negociar débitos tributários com o governo federal em até 120 meses. No mês de agosto, por dia, mais de 1.000 microempresários pediram parcelamento de dívidas. Quanto destas dividas não seria evitado por algum planejamento?

Ao elaborar seu plano de negócio, calcule o investimento e o prazo de retorno, avaliando previamente a viabilidade econômica de sua ideia de negócio e invista tempo e dinheiro em pesquisa. Conhecer o mercado, clientes potenciais, concorrentes e tendências, repito, é fundamental para a estruturação de qualquer negócio. Caso não esteja seguro, guarde seu dinheiro e continue pesquisando. Gostar de pizza não significa que abrir uma pizzaria dará o resultado esperado, mesmo que você se farte de comer o que gosta todos os dias.